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Infiel?
O cenário era perfeito.
E ela combinava com essa perfeição. Ana era boa, verdadeira, querida. A sala era espaçosa, as cores eram limpas e a disposição dos objetos harmoniosa. O vento, que às vezes batia nas cortinas no final da noite de sábado, era talvez, o único que trazia um momento não planificado. Todos os outros deviam ser. Até o horizonte, calmo em todos os ângulos, parecia compactuar com a admirável simetria.
Certa hora, ela deixava a cabeça pender-se para o lado esquerdo e por alguns segundos – não mais que isso – consentia recostar-se no ombro direito dele. O abraço de inigualável ternura precedia o beijo não menos sutil. Ele agüentava firme. Assistia ao filme inteiro. Ela, por sua vez, cerrava os olhos quando os números acusavam setenta minutos de projeção. Ele a chamava e insistia para tê-la acordada. Ela se inclinava para alcançar o edredom azul-claro e se cobrir. Antes, enfim, de não se lembrar de mais nada.
Às vezes faziam amor no meio da madrugada. Mas, sonolentos, os dois raramente se lembravam desse feito.
No dia seguinte, ela era a primeira a acordar. Ao sentir a visão pouco definida, esticava o braço até resgatar os óculos gastos que ficavam em cima do sofá bege de dois lugares. Com as vistas menos embaralhadas, ela mudava de posição – com o máximo de cautela para não despertá-lo – e apanhava os livros de poesia de Vinicius de Moraes e Pablo Neruda, que eram destaque no objeto que fazia a vez da mesa lateral. Lia três, quatro, no máximo, cinco poemas de ambos e, logo em seguida, estirava-se novamente no colchão.
Era o tempo de contemplá-lo por mais cinco minutos, sem que ele a visse.
Mas ele sempre a via. E mesmo consciente de estar inteiramente desgrenhado após as dez horas de sono, sentia-se a figura mais extraordinária. Era a observação minuciosa de Ana que o fazia se sentir daquela maneira.
Logo, ele acordava, dava um abraço em Ana – que a essa altura olhava para o teto sem pensar em absolutamente nada – despreguiçava-se e balbuciava algumas palavras. Ele sempre se retirava antes de Ana. Desde menina, ela carregava consigo a fama de preguiçosa. Ela odiava, porém, nunca a vi negar. Ele ia direto para a cozinha, preparava alguma coisa e insistia em dizer que o café da manhã de domingo combinava com algum tipo de chá. A primeira refeição do dia era servida ali mesmo no colchão estirado na sala. Ana não era lá o que podíamos chamar de apreciadora de chás. Preferia um forte e bom café passado na hora. Mas não o desiludia jamais. Tomava o chá inglês com a mesma maestria dos ingleses.
Rê contou sua estória às 00h39
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*****
Naquele dia – e faziam isso em quase todas as manhãs de domingo – assistiriam algum filme. O sueco Infiel, do diretor Ingmar Bergman, fora o escolhido por Ana. Era, como o próprio nome propõe, basicamente uma história sobre traição. Os dois estavam silenciosos. Ele parecia estar mais tenso do que Ana. Bem mais tenso. Enquanto a história se desenrolava, ela pensava de modo lento e irresistível na subversão e estranheza do ato. Nada poderia ser mais censurável do que aquilo. Era uma perdição, segundo seus moldes cristãos. Mas, Marianne, a protagonista infiel, ganhara a simpatia de Ana. Em seus olhos, notava-se uma espécie de fascínio e deslumbre.
Durante duas horas e meia – um pouco mais, talvez – eles não se falaram e, mesmo estando tão próximos, quase não se olharam. Pareciam estar envergonhados, ou mesmo com medo. Ana era refém naquele momento de seus próprios pensamentos. Estava confusa e inquieta, apesar de parecer o contrário. Ele, imóvel, devia estar sentindo algo parecido. A introspecção do momento era cômica e cruel, na mesma proporção.
De tudo o que ela pensava, a única coisa que permanecia forte na sua cabeça era a maldita idéia de traição. Ana tentava se redimir pensando na solidez de seu amor.
Em vão.
Rê contou sua estória às 00h34
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De algum livro de poesia
Esta história começa num anoitecer de abril tão escuro quanto é o anoitecer enquanto se cai no sono. Não me recordo de como os objetos se portavam, de como a lua cheia e altíssima cruzava o céu, de como as pessoas existiam e de quão sem graça era a vida até a passagem daquela moça. Alguém portando sadia consciência haveria de ter sentido a mesma emoção ao ver aquela menina caminhar e sorrir. Alguma coisa, tal qual, um compasso de música boa que deslumbra, cega e comove os ouvidos. E acho até que os objetos não se portavam, a lua não cruzava o céu, e pessoas não existiam, quão único era o momento, quão linda era ela e quão perceptível era o seu cheiro de jasmim novo. Era de afável importância apenas seu andar, seu sorriso alto e alegre, seu olhar melancólico e sua presença perturbadora.
Foi nessa noite que algo dentro de mim se sacudiu mais forte. Quando o sossego se refez dentro do corpo, percebi que a existência daquela moça era por demais inquietante. A idéia de uma aproximação despertou em mim um temor sem precedentes. Talvez, porque, existisse naquela hora uma humildade imensa, que deixava se fazer notar. A menina de incomum feição, certamente, não perderia seu tempo com um rapaz tão burlesco e imaturo. Que idéia mais boçal querer o contrário. Mas a verdade é que eu trocaria minha vida por alguma palavra dela. Um cacho de gente pendurava-se ao lado da mocinha e eu, timidamente sentado num canto de um banco qualquer, com um silêncio qualquer, com uma vontade qualquer e com uma compleição igualmente qualquer, sentia o cheiro ardido e dolente da indiferença. Ao mesmo tempo em que uma tímida esperança me estabelecia naquele espaço. Pensar que nesta vida ela poderia vir falar comigo devia ser cômico demais.
Ainda sem acreditar, recuei-me lentamente, mas, não era nenhum desvario da minha vasta imaginação. Ela acabara de me lançar um olhar. Esperei um pouco mais. Nada aconteceu. Só, então, tateei minuciosamente meus óculos para confirmar se permaneciam inteiros. Suspirei fundo e, finalmente, olhei ao meu redor. A noite continuava ali e eu também. À medida que caminhava, dizia baixo: “ela me olhou com ar tão puro.” Apesar de não ter sido nada, a moça sabia do bem que me causara. E devia sentir um certo orgulho por isso. Pela primeira vez, desde que me entregara aos livros de poesia, não via algo tão vivo e tão belo.
Rê contou sua estória às 19h43
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Quase tudo novo...
Por Pablo Picasso: “Sempre faço o que não consigo fazer para aprender o que não sei.”
Emprego novo, turma de faculdade nova, ânimo novo, projetos novos, anseios e receios novos... Vida Nova! Desejava isso, embora não soubesse que a essa altura minha vida precisava mesmo era de uma boa reviravolta. Nem o cansaço proveniente da rotina extremamente corrida tira minha convicção de que agora tudo que escolhi é pra valer. Como já dizia uma amiga: “meu sorriso é meu maior termômetro”. Se ela estiver certa, meu termômetro diz que há em mim alegria quase desmedida. Há que se dizer, entretanto, que só não troco de namorado, família e amigos. Boa noite a todos!
Rê contou sua estória às 00h01
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Pisciana nascida no dia 15 de março. Dizem os astros que alguém assim mistura uma pitada de cada um dos onze signos anteriores. A infantilidade de áries, a sensualidade de touro, a suscetibilidade de câncer, a maleabilidade de gêmeos, a magnanimidade do leão, a acuidade de virgem, o mimetismo de libra, a sagacidade do escorpião, a benevolência de sagitário, uma certa reserva própria de capricórnio e uma tendência a desligar típica de aquário. Mas pensando bem, apesar de encontrar certa veracidade na compreensão zodiacal, é muita confusão para uma cabeça só. Tudo bem que eu possa parecer tão complexa vez ou outra, mas em geral, não sou um bicho de sete cabeças. O ar melancólico e o olhar vago já falam por si só. Nessas horas, preciso de silêncio e concentração. Nas outras, o sorriso largo e pra lá de sincero convida para um momento mais extrovertido. Para quem apreende facilmente os meus momentos, já é meio caminho andado. Não sou de lua e nem inteiramente constante. Devo estar no meio-termo, se é que isso se faz possível. Espelho-me nos meus pais, na genialidade de Drummond e Clarice, na poesia de Vinicius, na bossa de Tom, e nas pessoas que de alguma forma contribuíram para que eu fosse um pouco melhor hoje. Essa sou eu. Muito prazer! Fique à vontade, tá. Ah, meu nome? Renata! Mas pode me chamar de Rê...
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