Bem perto do passado

Perto de morrer, aos quarenta e sete anos, a pessoa com quem convivi boa parte da vida disse-me sentada à mesa – enquanto tomávamos o café da tarde – que seu passado a impedia de ser inteiramente feliz. Não me recordo de ter dito alguma coisa, proferido algum conselho ou pronunciado alguma recomendação. Na ocasião, aquela era mais uma – em meio a tantas – confissões que eu ouvia com freqüência. Ao propor, recentemente, uma arrumação em meus armários empoeirados, me dei conta de que breves histórias podiam ser contadas através de objetos que haviam se perdido na memória.

A infância, os sonhos antigos, os amigos que partiram para rumos distintos, os namoricos dos tempos de colégio, as viagens inesquecíveis, as primeiras frustrações amorosas e futuros triunfos, os livros e as canções mais influentes, entre outras, são algumas lembranças, das quais, passei a me recordar com imenso carinho. Sem saudosismos fui tirando um por um todos os objetos que por vários motivos foram conservados.

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Em março de 2001, eu mal havia completado dezoito anos, tive um texto publicado no Observatório da Imprensa. Na época, eu ainda era encantada com o jornalismo, e era sobre esse deslumbre que meu texto tratava. O artigo, elogiado por muitos, teve para mim repercussão inacreditável. Recebi mensagens de pessoas do Rio Grande do Sul, da Bahia, do Ceará, do Amazonas e até de uma jornalista brasileira, naquele momento recém-formada, que residia numa cidade do interior de Portugal. Este meu artigo e os diversos comentários sobre ele estavam guardados no fundo de um armário que quase nunca era aberto.

Profundas mudanças foram sentidas, embora tenha se passado pouco tempo. Ébria de esperança e entusiasmo, recusava à minha própria maneira o mundo errado que os mais velhos queriam deixar como herança. Desejava com a profissão que eu havia escolhido, influenciar alguém com alguma idéia decisiva, ou a depender da circunstância, com algo mais modesto. O fato é que eu não soube afrontar as pessoas prepotentes que são a cara do jornalismo dos últimos tempos. Não desisti. Apenas ando realista demais. Vale dizer, entretanto, que o excesso de realismo não me impediu de enxergar os jornalistas – esses dignos de admiração - que ainda se afetam, se indignam e se comprometem impetuosamente com a parte nobre e excelente da profissão.

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Novas histórias vinham à cabeça a cada objeto que era redescoberto. O diário que era uma referência às aflições dos primeiros anos da adolescência. Os dois livros de bolso que foram lidos pouco tempo depois da alfabetização. As pétalas vermelhas de uma rosa, guardadas dentro de uma agenda velha, que se manteve firme como coadjuvante durante um momento memorável. O bilhete de ida e volta de uma das viagens mais expressivas. As fotografias de pessoas que foram essenciais à minha formação. E tantas outras...

O que transparecia naquelas recordações era uma espécie de pacto secreto entre eu e os meus pequenos e grandes momentos. Nada daquilo era inseparável. A vida é o reconhecimento de tudo o que já foi vivido e de tudo o que se espera para amanhã ou depois. Mas ainda assim, prefiro imensamente a vida de agora. Submetê-la ao passado é algo que não faria jamais, já que a nossa impotência ante ao que já foi construído é bem mais perene. Fazer do passado a justificação da própria vida é se negar conscientemente e se recusar a desvendar as boas surpresas que ela sempre guarda consigo.





Rê contou sua estória às 16h49

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Só mais quatro...

Queria somente que o dia tivesse mais quatro horas! Leia-se: meu tempo é insuficiente para fazer tudo o que planejo e gostaria de planejar.

Sexta-feira, 20 de agosto, 8:15 da noite. Fisicamente eu estava na sala de aula, ouvindo orientações – bem conduzidas até – acerca da disciplina “Projeto Experimental em Jornalismo I: Metodologia de Pesquisa”. Era tudo menos agradável estar ali. A falta de concentração era tanta e o desejo de ver o mundo acabar em cama era tão forte que àquela altura nem cinema brasileiro, assunto sobre o qual ouviria com deleite em circunstâncias normais, poderia ser um tema interessante. E isso só é aceitável, caro leitor, porque às 5:15 da manhã eu já estava de pé. E, sinceramente, quem estiver inteiramente bem disposto após quatro horas e quinze minutos de sono conquista minha admiração por toda vida. Ainda assim, um dia compensador de batente e uma festa de aniversário com bolo de morango e torta de palmito me fizeram esquecer que os trabalhos de faculdade continuam atrasados, as idas ao cinema, os almoços com as amigas, a leitura e o sono, idem. Ainda sobre o plano acadêmico, os dois últimos horários foram só glória. A professora de “Jornalismo on-line” nos passou uma tarefa com a seguinte sugestão: “se quiserem, façam em casa.” É que o cansaço que também a condenava e a retórica de que sexta-feira à noite não combina com nenhum esforço intelectual se prontificaram a serem verdadeiros. Já em casa às 22 horas, meu ânimo foi concentrado em apenas três atividades: deitar-me, fechar os olhos e dormir. E se naquela mesma sexta-feira as 24 horas se transformassem em 28, daria tempo de ir à estréia do filme Olga, de tomar um chope com Denise e Ana Paula – que estavam enfurnadas no Maria de Lourdes desde às 7:30 da noite -  e ganhar um cafuné do namorado. E ainda de acordo com a minha distribuição de horas, ganharia mais uns 15 minutos de sono. Admissível para uma noite de sexta-feira.

Amanhã já é segunda e as coisas devem ser mais ou menos iguais. Mas quando penso que estou cheia de objetivos e com acendimento para pelo menos cumprí-los, faço jus à frase de Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

Uma ótima semana a todos!





Rê contou sua estória às 12h36

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Pisciana nascida no dia 15 de março. Dizem os astros que alguém assim mistura uma pitada de cada um dos onze signos anteriores. A infantilidade de áries, a sensualidade de touro, a suscetibilidade de câncer, a maleabilidade de gêmeos, a magnanimidade do leão, a acuidade de virgem, o mimetismo de libra, a sagacidade do escorpião, a benevolência de sagitário, uma certa reserva própria de capricórnio e uma tendência a desligar típica de aquário. Mas pensando bem, apesar de encontrar certa veracidade na compreensão zodiacal, é muita confusão para uma cabeça só. Tudo bem que eu possa parecer tão complexa vez ou outra, mas em geral, não sou um bicho de sete cabeças. O ar melancólico e o olhar vago já falam por si só. Nessas horas, preciso de silêncio e concentração. Nas outras, o sorriso largo e pra lá de sincero convida para um momento mais extrovertido. Para quem apreende facilmente os meus momentos, já é meio caminho andado. Não sou de lua e nem inteiramente constante. Devo estar no meio-termo, se é que isso se faz possível. Espelho-me nos meus pais, na genialidade de Drummond e Clarice, na poesia de Vinicius, na bossa de Tom, e nas pessoas que de alguma forma contribuíram para que eu fosse um pouco melhor hoje. Essa sou eu. Muito prazer! Fique à vontade, tá. Ah, meu nome? Renata! Mas pode me chamar de Rê...

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