A vida como ela é...
“Antes de inventar personagens para oferecer a seus leitores, um escritor precisa criar um personagem para si mesmo, isto é, forjar a máscara que usará para escrever. Precisa decidir que papel deseja desempenhar e em que tipo de jogo quer apostar.” Lendo esta frase de José Castello, em cujo artigo serve de apresentação para a conversa que se segue com o escritor João Gilberto Noll, me pus a pensar nessa máquina de enunciados dolorosos, comumente chamada de relacionamento. E pensei, porque, em tantos casos não é apenas a literatura que carece da criação de personagens. A vida real também tem dessas coisas. Não vou tão longe...
... saindo do trabalho, hoje, percebi que minha satisfação condizia com a sensação de dever cumprido. Primeiro, porque, desempenho um trabalho do qual acredito e mais ainda, porque, me sinto totalmente despida de qualquer personagem. Para emprestar novas cores à estréia, não precisei me maquiar, pintar os cabelos de castanho-claro, muito menos vestir roupas novas. O ambiente consegue ser agradável e produtivo, porque, ao que me parece as pessoas não se reduzem a uma encenação, ou a um forçado e constrangedor jogo intelectual. Não há tempo para os aspectos teatrais da vida.
... na última sexta-feira, quando encontrei um ex-colega de trabalho em um restaurante e fui convidada – junto com meu namorado - a fazer parte de sua mesa, pensei, mais uma vez, no joguinho de status que rege a maioria dos relacionamentos. Impressionante, mas até bem pouco tempo, eu era estagiária, ganhava um salário mínimo e praticamente não tinha voz. De repente, passei a ter. Coincidência? Não ouso pensar! E não ouso pensar, também, que eu tenha me tornado – nesse intervalo de tempo – mais inteligente e perspicaz. Podemos inferir o seguinte: namoro alguém inserido no mundo jornalístico de Belo Horizonte, não sou mais estagiária, trabalho numa grande empresa e ganho pouco mais que um salário mínimo. O ex-colega de trabalho e outras pessoas deixaram suas medíocres resistências em casa. Agora, posso soltar a voz, deixar de ser a estagiária tímida e calada de outrora e me situar no mundo como alguém que pensa e emite idéias. Hoje, sou convidada a fazer parte de rodas de pessoas que no começo mal me cumprimentavam.
... semana retrasada, quando chegava a um evento de trabalho, notei que não estava comigo o convite que deveria ser entregue à portaria. O amigo que estava ao meu lado estacionou o carro e disse ao porteiro: “Ela se esqueceu do convite. Tem problema?” O porteiro: “Sim!” Meu amigo: “Ela é filha de fulano!” O porteiro: “Por que não disse antes? Entra, entra, entra!”
... e é assim, meu povo. É em meio a esse emaranhado infernal de hipocrisia que vamos vivendo. Um dia você é nada, mas se no outro descobrem que você é filho de fulano, sobrinho de ciclano, passa férias na Europa e celebra datas especiais com Chandon e carpaccio, pronto: o anonimato e o sossego já eram. Mas, claro, um dia a máscara cai ou é arrancada. Porque quando não há verdade, a tendência é regredir, desagregar. É por tudo isso que quando me abordam com algum confete do tipo: “Como você é simples. Que bonito!”, não me deslumbro em acreditar nisso como virtude ou coisa do gênero. É só mais um dos meus abalos contra a hipocrisia. Só.
Rê contou sua estória às 23h10
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