A menina no espelho

Texto dedicado à minha mãe eterna

 e querida Pá...

 

É nítida a minha admiração pela obra de Fernando Sabino. A cada leitura, uma nova identificação. E a cada nova identificação a certeza de que seu papel de escritor não poderia ter sido mais bem cumprido. Passeando pelas páginas do livro O menino no espelho, não só me reconheci nelas como em muitos momentos achei que aquela era uma história contada por mim. Se assim for, deixemos o enredo como está, porém, com a seguinte observação: agora, ao invés de menino Fernando, menina Renata – em dois capítulos escolhidos para ilustrar essa proximidade.

 

Pulamos alguns anos, alguns lugares, alguns personagens e lá está ela. Assim como o Fernando, ela não via mal nenhum em dar trégua para as conversas dos bichos que viviam em sua casa. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o cachorro da família, o jabuti do irmão do meio e o passarinho do pai ganhavam voz e viviam em perfeita harmonia. Pra completar a turma dos faladeiros, ainda tinha o amigo imaginário Naninho. Naninho era o nome de um travesseiro, na época amigo inseparável, que a menina teve até os quatro anos. Por isso, sua justa homenagem. A Pá, moça que cuidava da menina, não via qualquer nexo naqueles papos com a bicharada e com o tal de Naninho, este pior porque nem existia. A Pá que não era má a olhava de vez em quando com ar de suspeita, mas lá no fundo ela achava era muita graça daquela arrumação toda. E era sempre que ela dizia para a Maria, mãe da menina: “Não sei onde a Renata encontra tanta história pra poder contar pra esses bichos.”

 

No tempo de Fernando os aviões se chamavam aeroplanos. No meu já eram aviões mesmo. Tirando o nome e a pouca sofisticação dos teco-tecos de antes, os aviões do tempo do Fernando e os do tempo da Renata eram muito parecidos. Imagine, também, se criança quer lá se preocupar com as questões técnicas. Os dois queriam apenas voar. E na cabeça deles isso seria mais simples que estralar os dedos. Para a Renata, então, que já conhecia dos seus sonhos todas as sensações que um vôo podia proporcionar devia ser ainda mais fácil. Para voar, Fernando chegou a criar um equipamento pra lá de extraordinário. Mobilizou sua força física, sua criatividade e sua audácia e não ficou pra trás. Desistiu da aventura de voar em seu próprio avião, quando seu equipamento correu com ele pelo quintal e espatifou-se de encontro ao muro. Renata chegou a desenhar e buscar os materiais para a construção de seu avião. Ficaria lindo e disso ninguém duvidava. Mas depois de muito pensar, ela chegou à conclusão de que queria voar como voava em seus sonhos. “Seria um vôo de pássaro e não de gente”, pensava ela. Na escada que servia para ligar a parte de baixo de sua casa ao jardim da frente é que acontecia o grande fenômeno. Era só ficar no topo da escada e levantar um pouco os braços. Pronto, em pouco tempo ela podia avistar do alto não somente o telhado da sua casa, como os telhados das outras casas mais próximas. Depois de planar por alguns minutos, ela descia e permanecia ali no degrau mais baixo da escada como se nada tivesse acontecido. Até aí era sonho e, por isso, ela não se contentava. Era preciso voar de verdade. Foi, então, que ela acordou disposta a isso. Correu até o topo da escada, levantou os braços na altura adequada, concentrou-se como jamais havia se concentrado, e antes de dar o seu maior pulo, contou até dez e (...) Lá estava a Pá, com os olhos esbugalhados e com o coração na boca, agarrando a menina pelas costas. “Você quer me matar antes da hora, Renata? Quer?”, gritou aos prantos. “Tudo bem, Pá, eu penso numa outra forma de voar”, respondi louca de raiva.

 

Mais adiante e agora bem mais crescida penso nas boas lembranças de minha infância. E vejo, alegremente, que aquela criança que um dia quis voar, que um dia deu sua amizade a um amigo imaginário, que um dia bateu papo com os bichos de sua casa, que um dia achou que todas as pessoas fossem boas, que um dia acreditou que o escuro fosse seu maior medo e que a dor mais forte que ela podia sentir vinha da palmada de sua mãe, ainda existe dentro de mim. O menino Fernando, que como vocês sabem vem a ser o próprio Sabino, descobre o melhor de si mesmo e nos deixa espaço para que também possamos descobrir o que há de melhor em nós. Foi com muita surpresa e deslumbramento que cheguei ao fim do livro “O menino no espelho”.

 

Espero que você opte pela mesma leitura.

Se assim for, que esta seja a mais prazerosa e lúdica possível.





Rê contou sua estória às 07h05

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Pisciana nascida no dia 15 de março. Dizem os astros que alguém assim mistura uma pitada de cada um dos onze signos anteriores. A infantilidade de áries, a sensualidade de touro, a suscetibilidade de câncer, a maleabilidade de gêmeos, a magnanimidade do leão, a acuidade de virgem, o mimetismo de libra, a sagacidade do escorpião, a benevolência de sagitário, uma certa reserva própria de capricórnio e uma tendência a desligar típica de aquário. Mas pensando bem, apesar de encontrar certa veracidade na compreensão zodiacal, é muita confusão para uma cabeça só. Tudo bem que eu possa parecer tão complexa vez ou outra, mas em geral, não sou um bicho de sete cabeças. O ar melancólico e o olhar vago já falam por si só. Nessas horas, preciso de silêncio e concentração. Nas outras, o sorriso largo e pra lá de sincero convida para um momento mais extrovertido. Para quem apreende facilmente os meus momentos, já é meio caminho andado. Não sou de lua e nem inteiramente constante. Devo estar no meio-termo, se é que isso se faz possível. Espelho-me nos meus pais, na genialidade de Drummond e Clarice, na poesia de Vinicius, na bossa de Tom, e nas pessoas que de alguma forma contribuíram para que eu fosse um pouco melhor hoje. Essa sou eu. Muito prazer! Fique à vontade, tá. Ah, meu nome? Renata! Mas pode me chamar de Rê...

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