A lareira

Para:
Alexandre Horta
A primeira coisa que veio à sua memória foi uma lareira. Apesar da recordação ter durado alguns minutos longínquos ela não supôs que sua cabeça fosse boa. Era, tanto quanto ela podia imaginar, bastante ordinária. De qualquer modo, sendo ou não sendo banal, naquele pouquíssimo tempo ela havia se lembrado de coisas que em épocas normais levar-se-iam, no mínimo, três dias para que tudo se colocasse naquela ordem. Como disse, lembrou-se da lareira e de um pouco mais e danou-se a chorar – prato cheio pra comadres que gozam quando notam que há na reta alguma dor-de-cotovelo. Topetuda que só vendo, ela conservou-se grande e incógnita. Seu chororô durou bem pouco. Foi o tempo que sua primeira lágrima levou pra cair ao chão e sumir. E não foi pra tanto. Dentro de toda aquela grande dor não existia som de pancadas, tiros, pragas nem de tilintar de esporas. Era um medo meio besta. Um medinho, que segundo ela, vinha lá da alma, de um canto da alma – talvez. Era receio de começar de novo. Zangava-se ao perceber que até quando dormia ele aparecia de um jeito ou de outro nos seus sonhos. E quando já era dia, zangava-se ainda mais quando percebia que lá estavam os devaneios de quem inda lembra, de quem inda tem apreço e de quem inda gosta demais. Do seu azedume até ela já devia estar farta. Mais ainda empanzinada de sorrisos amarelos e dias de nenhuma cor. Era coisa só dela, ninguém era capaz de ver, muito menos de sentir. De toda história, confesso: eu não sei. Só me disseram que dia desses o amor dela voltou. Voltou, porque nela, havia pedaços dele próprio. Penso que devem estar encolhidos um no abraço do outro, misturados num só corpo, vivendo felizes, em clemência àqueles que nunca tiveram um grande amor.
Rê contou sua estória às 07h19
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Minha estréia como conselheira
Estava aqui em meio à correria do trabalho, quando recebei esse e-mail de uma colega. Achei bacana ela ter confiado a mim a tarefa de lhe aconselhar, uma vez que, nem somos próximas. Não sou muito boa nisso, mas tentei escrever alguma coisa verdadeira, alguma coisa que dissesse um pouco do que venho pensando nos últimos tempos. Mediante consentimento de quem enviou, compartilho os e-mails com vocês.
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Renata,
Viver é buscar a felicidade. E para tanto é necessário sentirmos úteis e reconhecidos. O que não estou sentindo. É certo que toda nossa realização depende de nosso esforço. Mas, ainda assim não consigo compreender estes altos e baixos que estão oscilando no meu interior. Ora satisfeita, ora insatisfeita. A única conclusão que cheguei é que ainda não me encontrei. E isto está me incomodando. Não tenho prazer em permanecer apática. Aqui não está meu sonho, mas está a necessidade. Enquanto não conseguir unir ambos, não terei pleno prazer em viver. A apatia, a inutilidade e a ociosidade é o incômodo que está vigorando nesta exata passagem. Não sinto bem em descarregar estas lástimas, e muito me admira falar delas assim. Mas a essência primordial é o encontro pessoal e o direcionamento das perspectivas para um presente melhor. Não digo futuro, pois o que quero é viver cada instante, cada segundo de minha vida com mais prazer e felicidade. Todos os dias nos deparamos com relatos sobre vida. Comparações relativas a alguma situação ou procedência da inteligência humana como a matemática, o universo, as estrelas, uma árvore, sementes e seus respectivos frutos. Há uma diversidade de comparações. Porque não comparar a vida com a própria vida? Parece loucura! Mas, a experiência de cada ser é equiparada a uma lição estratégica para resistir aos anseios saciando todos os sentimentos.
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Querida Lu,
Você é libriana, eu sou pisciana. Conclusão: em alguns momentos pensamos e sentimentos coisas muito semelhantes. Por essência, sou uma pessoa que sempre está em busca de algo. Às vezes, nas minhas reflexões, indago-me: “Mas, poxa! Isso não é justo! Tenho pais maravilhosos, moro numa casa legal, convivo com pessoas interessantes, estou estável financeiramente, minha vida afetiva está entrando nos eixos, enfim. Sendo assim, por que me sentir angustiada ou coisa e tal?” Sim, tenho feito essa pergunta a mim com bastante freqüência. No entanto, quando consigo me despir de todos os julgamentos, cobranças e preconceitos, vejo que isto faz parte de mim, da minha natureza. E contra a nossa natureza é inválido lutar. O que podemos fazer é tentar minimizar o sofrimento que esta tal natureza nos impõe. É possível fazer isso? Claro que é possível. Estou conseguindo. Sabe por quê? Porque tenho lutado e quebrado a cabeça com o propósito de ser uma pessoa melhor. Assim como você, me sinto ainda muito apática. Sabemos que podemos doar muito mais, que podemos ser muito mais úteis. Profissionalmente, digo-lhe com o coração aberto que quero e vou viver do que escrevo. Enquanto isso não ocorre, enquanto eu não ganho meus louros através da escrita, eu não desisto, porque sei que em qualquer lugar onde eu estiver posso aprender e absorver coisas muito bacanas. É assim que vou caminhando. Meses atrás passei por uma fase um tanto quanto turbulenta. Eu não sabia o que queria, não tinha a mínima idéia do que me angustiava tanto. Aos poucos, as coisas foram se assentando e, conseqüentemente, fui me sentindo bem mais tranqüila. Tenho tantos projetos que ainda não pude desenvolver. Você tem 24 aninhos, eu tenho 21. Somos tão jovens, tão cheias de vida. Imagine o que ainda podemos fazer por nós e pelos outros? Muito, o que quisermos. Não se envergonhe de estar expondo com tanta verdade os seus sentimentos. É assim que se faz. Devemos ser verdadeiros, antes de tudo. Acredito, sim, que você esteja no caminho certo. Não sei se te conforta, mas aqui também não está meu sonho. Discordo de várias coisas, não compactuo com tantas outras. Mas é assim que a gente aprende a se conhecer, sabia. É nos encontros e desencontros que vamos moldando nossas escolhas e gostos. Lu querida, viva cada instante como se fosse o único. É difícil, às vezes me sinto medíocre e impotente. Mas dê cada passo com a certeza de que não poderia ter sido melhor. Viva e não se leve tão a sério. Meu namorado é quem diz muito isso: “Rê, pelo amor de Deus, não se leve tão a sério!” Sorria, brinque, chore, exponha, converse, grite... Faça, simplesmente, o que tiver vontade. Viva sem medo de ser feliz. É clichê, mas é a mais pura da verdade.
Rê contou sua estória às 16h36
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